Privacidade: uma nova lição de casa | Dennys Antonialli

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Recentemente, ganhou destaque o caso envolvendo o vazamento de informações pessoais e sigilosas de alunos e ex-alunos do tradicional colégio Bandeirantes, em São Paulo. De comentários sobre o seu comportamento em sala de aula até dados médicos e familiares, as atas de reuniões pedagógicas vazadas expuseram estudantes e professores. Depois de atribuir a responsabilidade pelo incidente a um aluno, que teria invadido o sistema onde esses arquivos ficam armazenados, a direção do colégio admitiu a possibilidade de ter havido uma falha de segurança.

Não é novidade que o processo pedagógico produza uma grande quantidade de informações sobre os alunos. São dados que auxiliam os educadores a avaliar o seu desempenho e a acompanhar o seu desenvolvimento, como notas, frequência, situação familiar e até observações sobre suas condições de saúde e atenção. Antigamente, esses registros eram feitos em pastas e arquivos físicos de acesso restrito.

Com a informatização das escolas – públicas e privadas -, muitos desses registros migraram para bancos de dados digitais, o que facilitou a sua organização e processamento. Por outro lado, isso potencializou o risco de acesso não autorizado a tais arquivos. Investir na segurança desses bancos de dados é indispensável. Basta pensar na possibilidade de futuros empregadores terem acesso a relatos de indisciplina ou de colegas ficarem sabendo de detalhes familiares íntimos, como situações de violência doméstica ou abuso sexual.

Mas o problema não está só aí. Mais do que garantir a segurança e o sigilo dessas informações, devemos nos preocupar com as políticas de privacidade dos dispositivos e aplicativos educacionais. De lousas inteligentes e tablets a cursos em plataformas virtuais, a tecnologia está mudando as formas de ensinar e aprender. Muitas vezes, o uso desses recursos implica a coleta e armazenamento de dados sobre os alunos, como interesses de leitura, dificuldades de coordenação motora ou o tempo necessário para a resolução de exercícios. Se não forem protegidos, esses dados podem servir a finalidades indesejáveis, como o repasse desautorizado a anunciantes. Recentemente, nos Estados Unidos, mais de 125 desenvolvedores de tecnologias voltadas à educação se comprometeram publicamente a não abusar do seu poder de coleta de dados pessoais.

No Brasil, encontra-se em consulta pública um anteprojeto de lei que visa estabelecer parâmetros para a proteção de dados pessoais. É uma tentativa de recuperar anos de atraso da legislação brasileira sobre o tema, já amplamente debatido (e tratado) nos Estados Unidos e na União Europeia, por exemplo.

Casos como o do Bandeirantes indicam como a empolgação com a modernização do ensino pode não ter vindo acompanhada de necessárias preocupações com a proteção da privacidade e chamam a atenção para a responsabilidade das escolas em preparar as novas gerações para lidar com os desafios ligados à sua exposição frente à tecnologia. Esse é um erro que talvez tenha como origem o pouco valor dado à discussão sobre privacidade na esfera pública brasileira. Está na hora de corrigi-lo.

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/dennys-antonialli/privacidade-uma-nova-lica_b_7125746.html?utm_hp_ref=brazil